Porque deixei para trás uma carreira de 5 anos

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Ou chamemos-lhe conclusões pós 2018, quase um ano depois de ter desistido da minha carreira no mundo do marketing de influência e gestão de redes sociais.



Nos últimos 5 anos vivi para uma carreira que, pouco a pouco, me apercebi que não queria.
A verdade é que mesmo com um emprego bem pago e escritório fixe, nunca seremos bem sucedidos se não formos realmente felizes.

"E isso de ser feliz, é o quê?"
Como se quantifica a felicidade? É uma vida fácil, livre de preocupações? É dinheiro para comprar um Ferrari? Ou é ter comida na mesa para os nossos amigos/família? Será ter tempo para ver uma temporada inteira de Game of Thrones sem nos preocuparmos com trabalho?
As respostas variam de acordo com cada um. Nada trás felicidade da mesma forma a pessoas diferentes.

Façam este teste simples: gostam de segundas-feiras? Se a vossa resposta é não, então o vosso trabalho não vos trás felicidade. 


"Mas o meu trabalho não é para me fazer feliz a mim, é para fazer o meu chefe feliz porque é ele que me paga ao fim do mês".
Esta ideia parece humilde, mas aproveito para vos avisar que é só estúpida

Nós não temos de viver para o trabalho e sonhos dos outros como escravos de um salário fixo. Não não temos de viver obrigados a seguir ordens que não queremos cumprir. Quando nos contratam estão a fazer uma aquisição de skills para a empresa. Uma empresa emprega funcionários porque precisa, não somos só nós deste lado que precisamos deles. Nós ajudamos a trazer valor a quem nos contrata, gerimos equipas, injectamos criatividade, ideias que vão valer o quádruplo quando colocadas na mesa de um cliente. Tenham mérito e saibam bem o vosso valor. O que sempre me safou foi saber o meu!
Por isso, mesmo tendo passado por empregos que me davam o ordenado mínimo apesar de ser licenciada, em poucos meses exigi sempre aumento - porque meus caros, se ficarem sentadinhos á espera daquela promoção simpática só porque são excelentes trabalhadores, bem podem esperar sentados. 

Andei nesta vida mais tempo do que devia, a vida dos escritórios. Sempre achei as séries de advogados muito engraçadas e pensei que giro era eu ter um closet cheio de "roupa de trabalho" (whatever that means). Quando comecei a tratar da minha saúde física e mental, e quando me diagnosticaram G.A.D. (em breve faço um artigo sobre este tema), comecei a colocar tudo noutra perspectiva.
Eu odiava segundas - óptimo indicador para perceber que estamos no trabalho errado (não necessariamente na carreira errada, tho) e odiava acordar cedo. A minha médica insistiu ainda comigo durante uns anos para que eu começasse a trabalhar a partir de casa, por conta própria. Dizia que era o melhor para a minha saúde, mas eu embirrei que conseguia manter uma carreira num escritório. A ideia de me responsabilizar por gerir um rendimento instável, mandar-me a mim mesma trabalhar e não ter subsídio de férias ou de doença, assustava-me demasiado.
Mais a ideia de que tinha de provar aos outros algo - como muitos de vocês, que acabam por tomar decisões de vida em prol da validação dos vossos pais/amigos/inimigos/sociedade - prendeu-me vários anos a este tipo de empregos.

Mas a liberdade entusiasmava-me. A liberdade de decisão, de poder seguir o meu instinto e não a ordem de lá de cima, muitas vezes com menos conhecimento do que os seus funcionários, mas cujos desejos seriam sempre impostos no matter what.
E sabem, a liberdade pode ser também incrivelmente assustadora para quem viveu os últimos 20-30 anos a seguir as directrizes dos pais, professores, escolas, faculdades e outras figuras de autoridade...sem estar habituado a tomar decisões sozinho. Faz-me lembrar a Alegoria da Caverna - digam-me que estiveram atentos ás vossas aulas de Filosofia no secundário - em que sair da caverna para descobrir o mundo se tornou num medo maior ao sofrimento de ficar enclausurado dentro dela, com as sombras do que se passa lá fora.

Então foi quando a minha saúde não me deixou mais dormir, comer algo que não fosse uma sandes, e o meu sistema imunitário deu o berro ao ponto de passar a estar constipada a cada estação, percebi que estava a fazer tudo mal. 

Porque é que estava a viver para o fim-de-semana quando eles são só 2 dias?
Porque é que estava a trabalhar ao fim-de-semana em algo que não estava estabelecido nas minhas funções quando fui inicialmente contratada?
Porque é que as minhas horas extras não eram contabilizadas?
Porque é que, apesar de ter um bom salário, sentia que o dinheiro nunca era suficiente?
E porque é que gastava tanto dinheiro em coisas que não precisava de forma cada vez mais impulsiva?
Porque é que ficava 3h a olhar para o tecto a tentar adormecer?
Porque é que me irritava tanto com coisas aleatórias em casa, como os chinelos no meio da sala?
Porque me chateava tanto ver o meu namorado a jogar videojogos que costumávamos jogar juntos?
Porque é que andava sempre engripada, a tossir ou com alergias?
Porque é que me sentia constantemente exausta, física e mentalmente?
Porque é que todas as manhãs sentia-me enjoada, como uma grávida, sem poder tomar um pequeno almoço de gente?
Porque é que acordava todos os dias a chorar?

Se isto vos soa minimamente familiar, está na hora de mudarem de ares.
Comecem por visitar um psiquiatra.
"Ui, mas isso não é para malucos?"
Não.
Por vezes a nossa biologia pode não estar a funcionar a nosso favor e tal como fazemos checkups regulares para cuidar da nossa saúde física, devem fazer o mesmo com a vossa saúde mental. Baixos níveis de seratonina e adrenalina alta foram algumas das maldades que a minha biologia decidiu fazer-me, deixando-me mais propícia ao mau humor, fadiga e dores de estômago. Juntamos essa predisposição a um ambiente especialmente stressante e a uma carga de trabalho desmedida, e puff, é uma questão de tempo até explodir, muitas vezes em problemas mais graves de saúde como depressão, anorexia nervosa, esgotamento, uma úlcera no estômago ou um ataque cardíaco.
Ajuda também terem um visão externa de um profissional destes. Nem sempre é fácil percebermos o que se passa nas nossas próprias vidas porque perdemos a noção do quadro geral (the bigger picture) e é com terapia que retomamos as rédeas dos nossos pensamentos, em particular daqueles que nos são destrutivos. 

Resumindo, cheguei muito perto uma situação que poderia ter sido pior do que foi, apesar de vos dizer desde já, que não foi fácil. Mas percebi que estamos todos mais que a tempo de mudar as nossas vidas e moldar o nosso futuro de acordo com aquilo que queremos que ele venha a ser.
É um processo e temos de aprender a amar esse processo.

Quando me demiti, senti um alívio tão grande que só me apetecia chorar. 
Chorar pela liberdade e pela força de enfrentar o desconhecido, que admito, me assustou tanto como ao homem da Alegoria da Caverna.


Mas hoje vivo sabendo que tomei a melhor decisão da minha vida. Mas melhor não é sinónimo de mais fácil, como disse, temos de aprender a apreciar o processo, a celebrar as pequenas conquistas, a aceitar que a luta e o suor faz parte da vida, e claro, da nossa carreira também. 

Mas se vamos suar de qualquer maneira, mais vale que suemos por algo que nos entusiasme! E aí deixamos de viver para o fim-de-semana e começamos a perceber que a segunda-feira é um dia tão ou mais incrível que os outros.





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